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Personalidade do Agronegócio 2006


 

Alysson Paolinelli,

Personalidade do Agronegócio 2006 
 

      Senhoras e Senhores Congressistas da Associação Brasileira de Agribusiness, 

     Ao ser convidado para ser o porta-voz de tão importante homenagem, ponderei sobre o motivo da escolha. Seria por causa de uma das paixões do sempre ministro Alysson Paolinelli? 

     A resposta é não, afinal a coincidência é nas cores preto e branco, as mesmas do Santos, meu time e do presidente Carlo Lovatelli ou do Corinthians, do ministro Luis Carlos Guedes. 

     Mas então por que?  

     Me veio à memória uma lembrança de família quando, na década de 70, o ministro foi a São Carlos para inaugurar a sede da Cooperativa de Laticínios, da qual meu pai era diretor.  

     Deixei o passado, pois a ABAG consagra este 5º Congresso à construção do futuro. E nele homenageia o ministro Alysson Paolinelli.  Erra quem vê nisso apenas coincidência ou acaso. É justo reconhecimento a quem dedicou sua vida ao futuro.  

     Mas erra também quem conclui que essa escolha é só uma decorrência natural da carreira do ministro. Há muito mais que isto. Há, com certeza, um quê de predestinação. Mas, também, errará quem, por reconhecê-lo predestinado, julgar que sua vida seja um tédio porque previsível.  

     Não tem sido assim. Há na vida de Alysson Paolinelli muito mais da emocionante erraticidade de partículas quânticas em movimento browniano do que os inexoráveis e quase sempre óbvios desfechos da lei de causa e efeito. Pois, na sua vida os efeitos têm desafiado as causas aparentes, mostrando que há outras forças influindo em sua trajetória. 

     Nascido nos cerrados de Bambuí, de agricultura tradicional, nem mesmo ele se arriscaria a prever que seria, como diz o ministro Reis Velloso, um dos “heróis” da inovação que nos deu esse agronegócio moderno e vitorioso que temos no Brasil. Imaginava fazer-se um político da melhor escola mineira, como o pai e os amigos ídolos JK e Tancredo Neves.

     

     Para isso se preparou no famoso Instituto Gammon,– por onde passaram outras lideranças inovadoras como o nosso Eliseu Alves – e na Escola Superior de Agricultura de Lavras - onde sempre foi o primeiro aluno - desde o vestibular, presidente do diretório acadêmico por dois mandatos, e orador da turma. Fez-se agrônomo para ser um político diferenciado como o pai.  

     Mas, o chamado dos velhos mestres frustrou-lhe os planos: assumiu a cadeira de Hidráulica, Irrigação e Drenagem e, logo depois, a direção da escola, pois ambas estavam ameaçadas de serem fechadas, por falta de quem as mantivesse.  

     Com a ajuda de Tancredo Neves e outras lideranças políticas fez de Lavras uma escola federal e, junto com Viçosa e a Esalq, uma das instituições líderes da reforma universitária, que nos deu professores de tempo integral dedicados ao tripé ensino-pesquisa-extensão e a criação da pós-graduação nas ciências agrárias no Brasil. 

     Se o Brasil ainda não sabia do seu valor, Minas já reconhecia o que tinha nas mãos. Em 1971,  o governador Rondon Pacheco o convocou para reorganizar, em bases modernas, a agricultura do estado. Atento ao que se planejava, em Brasília, em termos de inovação da agricultura dos cerrados, Paolinelli criou o PIPAEMG - um programa que usava recursos estaduais para integrar numa mesma rede de pesquisa agropecuária os institutos estaduais, os órgãos de extensão e as universidades federais sediadas em Minas.  

     Com financiamento japonês criou o Projeto Jaíba, de fruticultura irrigada, e o PADAP – o plano de assentamento dirigido do Alto Paranaíba, focado em assentar descendentes dos imigrantes japoneses. Essa aproximação com os japoneses, como sabemos, traria frutos inestimáveis para o Brasil, como a conquista dos cerrados. 

     Assim, capturou a atenção do General Ernesto Geisel e se tornou ministro aos 37 anos. O que imaginava para Minas, pôde fazer em escala nacional, não só em termos de políticas públicas mas também em termos de desenvolvimento institucional.  

     Tinha em mãos uma rede de estatais que cuidavam da pesquisa agrícola, da extensão rural, da armazenagem, do crédito, dos preços mínimos e estoques reguladores, da pesca, do abastecimento, da reforma agrária e colonização, do cooperativismo e do desenvolvimento florestal.  
 
 

     Recém-criadas, ajudou a consolidá-las, sobretudo aquelas mais inovadoras, como era o caso da Embrapa. Entre 74 e 75 criou ou reformou 25 das atuais 40 estações experimentais da rede da Embrapa, trazendo grandes inovações como o serviço de sementes básicas, o Centro de Recursos Genéticos, o dos Cerrados, o do Semi-árido, o do Pantanal, o de Arroz e Feijão, o de Soja, o de Algodão, e as seis unidades de pesquisa da Amazônia.  

     E por sua relevante contribuição para o desenvolvimento da pesquisa agropecuária foi agraciado, ao final dos anos setenta, com o Prêmio Frederico de Menezes Veiga. 

     Apoiou iniciativas portadoras de futuro como o programa de formação de competência científica nas melhores universidades do mundo. Ele sabia da importância disso, pois para criar o PIPAEMG não encontrara em todo o Brasil nenhum doutor em Ciências Agrárias.  

     Usou sabiamente a competência da Embrapa e das demais coligadas do ministério, e as políticas públicas que elas lhe facultavam criar, para colocar no prumo os grandes desafios de desenvolvimento do interior propostos pelos segmentos agrícolas do Polocentro, Polonordeste e Polamazônia.  

     A nova fronteira agrícola era invadida por hordas de jovens agricultores, entusiasmados com as promessas de um novo futuro apregoado por Paolinelli e sua jovem equipe, que contava à época com farto crédito subsidiado pelo governo e soube empregá-lo como um dos principais indutores da adoção de novas tecnologias.  

     Em 78, ao cabo de quatro anos, Paolinelli sacudira o interior do Brasil e despontava no cenário político sem arestas. Reunia visibilidade, reputação de competência e eficiência executiva, prestígio, liderança política. Contava com o respeito de Geisel. Era o candidato natural ao Governo de Minas. Quem sabe chegara a hora de retomar os projetos políticos? 

     Mas, o presidente Geisel pensou diferente. Ao final de um despacho, chamou-o para uma conversa, falou da importância de Minas, e pediu-lhe que ficasse no Governo para consolidar o modelo agrícola que estavam criando.  

     De novo, o desvio. Como negar-se a Geisel? Mas valeu a pena mais esse sacrifício. Pois não é exagero dizer que o destino que cumprimos hoje, no agronegócio tropical, foi semeado naqueles cinco anos.   

     E assim, de desvio em desvio seguiu sua vida. Quando Geisel o quis de volta à política mineira e o indicou para o Banco do Estado de Minas Gerais, o que prosperou foi a aliança com o agronegócio. Tornou-se presidente da Fiat Allis Latino-americana e iniciou uma bem sucedida carreira de consultor em projetos agropecuários pelo interior do Brasil. 

      Quando, com Aureliano Chaves, foi um dos primeiros signatários a criar o Partido da Frente Liberal - sinalizando a inovação política e a transição de volta à democracia - a eleição que lhe coube foi na Confederação Nacional da Agricultura, um novo desvio.   

     Foram buscá-lo, pois a revolução que acontecia na agricultura reclamava uma reorganização de suas representações classistas que se perpetuavam em sucessivas reeleições. Venceu por um voto. Manobras da mesa impugnaram dois votos e transformou a vitória em derrota. Apelou à Justiça, mas manobras políticas, que alcançaram o Palácio do Planalto, estancaram o julgamento.  

     Refluiu para suas consultorias.  

     Mas a política é quem foi buscá-lo, pois ela é quem precisava de inovação. A Constituinte se anunciava plena em radicalismos e retrógrada para o setor produtivo organizado. Se elegeu e organizou um bloco para negociar convergências entre forças antagônicas. Ajudou a criar a Bancada Ruralista, que reúne inúmeras frentes parlamentares em favor do agronegócio.  

     Foi uma inovação na política nacional: em lugar das costumeiras disputas paroquiais, que impediam o progresso regional e nacional, estabeleceu-se a organização de blocos de interesses legítimos e transparentes.  

     Nesse interím, a Justiça anulou a eleição da CNA de 86. Feito o novo pleito, ele venceu por 24 votos a zero. Presidente da CNA, em 1988 iniciou um processo de profissionalização da representação classista absolutamente inovador e que tem sido honrado e engrandecido por seus sucessores.  

     A esta altura, o ministro Paolinelli andava mais entusiasmado com a vida privada e com suas consultorias, do que com a política ou a vida pública.  
 
 

     Passou a resistir aos convites. O último que aceitou, do Governador Hélio Garcia, teve o seguinte argumento vencedor:” Paolinelli, você é um homem de um milhão de votos, não pode perder tempo com essa coisa sem futuro!”.  

     A “coisa sem futuro” que Paolinelli estava cuidando, na Alemanha, em 1990, eram os óleos vegetais carburantes, o biodiesel de hoje, no qual repousam as nossas esperanças de futuro da Humanidade.  

     Não é preciso dar mais detalhes para concluirmos que Alysson Paolinelli construiu, sim, uma carreira política. Não, aquela vida político tradicional, a de se eleger para cargos no executivo ou legislativo, comum a tantos. A que lhe estava reservada era a via extraordinária da ação política revolucionária, que transforma os homens e as instituições.  

     O processo que transformou a agricultura itinerante do passado nesse agronegócio de futuro é isso: uma profunda e radical revolução, no conhecimento tecnológico dos homens, nas políticas públicas que viabilizaram e no desenvolvimento institucional com que moldaram as organizações públicas e privadas.  

     O que vemos na carreira de Paolinelli é que ele esteve em todos esses lugares, em diferentes momentos, mas nos momentos cruciais capitaneando as ondas de transformação inovadora que esses segmentos reclamavam.  

     Neste momento, me vem à memória outros grandes revolucionários a quem o Brasil deve muito. Como não reverenciar:

Antonio de Secundino São José,

Aloísio Campelo,

Fernando Penteado Cardoso,

Ney Bittencourt de Araújo,

Roberto Rodrigues e

Isaac Ribeiro Ferreira Leite – que nos deixou no último sábado e foi o primeiro homenageado pela  ABAG –,

para citar apenas alguns dentre muitos que deram às suas vidas a missão de melhorar as políticas públicas e as instituições do agronegócio tropical.  

     Cumpre-nos aqui ressaltar o esforço que tem feito a ABAG de resgatar e distinguir esses heróis brasileiros, como faz nesse momento com Alysson Paolinelli. A história do Agronegócio Tropical tem pouco registros.  

     Neste momento apelamos para que o Brasil se associe a ABAG, a fim de que a história de todos os seus heróis mereçam registros dignos de suas contribuições. 

     E por falar em contribuição, não poderia deixar de aplaudir um reconhecimento internacional a tudo o que o ministro fez pelo desenvolvimento dos Cerrados. Em outubro ele receberá – ao lado do ex-pesquisador da Embrapa Édson Lobato - nos Estados Unidos, o World Food Prize, o Prêmio Mundial da Alimentação. Considerado um “Nobel” da Agricultura, é um alimento para o orgulho do agronegócio tropical! 

     Por fim, algo do estilo pessoal de Paolinelli. Incansável no trabalho, manteve sua família unida – e aqui está parte dela – e criou uma forma nada ortodoxa para se encontrar com o filho: a reunião aérea. Isto mesmo, ele comprava a passagem e durante as viagens resolvia assuntos familiares, ficando assim um pouco mais de tempo perto dos filhos. 

     Paolinelli nunca deixou de ser um produtor rural. Agricultor e pecuarista. Como agricultor, conhece a importância das raízes. Por isso, quando cessa a revolução, reflui, volta à sua roça para nutrir-se nas suas raízes.  

     Como pecuarista, sabe que um rebanho só se tange tangenciando, lidando pelas beiradas. É como faz com os problemas, com as idéias, com as pessoas e as instituições.  

     Quando menos esperamos lá está ele, com o dedo na ferida. Quieto e manso, sem fazer doer. E a gente não tem outro remédio a não ser ajudá-lo a pensar a ferida. Por isso, nosso agronegócio tropical é são.  

     Por isso, Alberto Weissler, da Bungue, interpretando o sentimento do agronegócio, disse dele: “É o nosso guru!”. E nós, da Embrapa, revelando o sentimento do setor público, fazemos eco: “É nosso guru também”! 

     O jornalista Sebastião Nery, falando de Paolinelli, disse que a maior obra de JK não foi a construção de Brasília nem a indústria automobilística. Foi a conquista dos cerrados. Entre as fotos que mostramos aqui está o convite de formatura de Paolinelli, da qual JK é o paraninfo.  

     Hoje sabemos que não foi um gesto político corriqueiro. Foi uma passagem de bastão. De um predestinado para outro. Como se JK dissesse ao principal formando daquela noite de dezembro de 1959: “Vá e continue o que eu comecei!”. 

     E hoje, quase 50 anos depois, Paolinelli continua compartilhando o seu entusiasmo de eterno jovem com a inovação, com a integração pecuária-lavoura, com a Rede de Inovação e Prospecção para o Agronegócio, seja como consultor da Embrapa e das empresas do agronegócio, ou conselheiro dos fundos setoriais de Ciência e Tecnologia e das organizações políticas.  

     É bom prestar atenção por onde ele anda, pois sua bússola quase sempre aponta para o futuro. 

      Peço ao professor Alfredo Scheid Lopes que venha aqui nos ajudar neste momento. O professor Scheid Lopes, como sabemos tem sido um companheiro inseparável de Alysson Paolinelli e uma testemunha ocular de toda essa epopéia. Que seja co-autor de mais esse momento épico.  

      E, agora, senhoras e senhores congressistas da ABAG, peço-lhes que nos ajudem, com as honras e o reconhecimento a que faz jus, a entregar o troféu para Alysson Paolinelli, Personalidade do Agronegócio 2006. 

last modified
04/06/2007 15:14
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