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Por onde andam os nossos turistas pescadores? (15/09/2005)
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Ivo Bianchin*; Hermano J. H. de Melo**,Araê Boock*

Pescadores amadores, com quase trinta anos vivendo em Mato Grosso do Sul, garantem: os peixes sumiram dos rios do Estado! Segundo eles, as razões disso são várias: poluição das águas, pesca predatória, extrativismo, assoreamento dos rios, e assim por diante. No passado, como havia grande quantidade de peixe, a questão da preservação não foi levada a sério, nem pelos pescadores profissionais, nem pelos pescadores esportivos, nem pelo governo do Estado, e muito menos pelos políticos locais que preferiram não contrariar os interesses imediatos de uns poucos que buscavam o lucro fácil, em prejuízo das gerações futuras.

O fato é que o peixe praticamente acabou, os turistas pescadores sumiram e todos os hotéis e pousadas criados para servi-los estão às traças e sendo sucateados, com enormes prejuízos para os empresários do setor e para a economia regional.

Como se sabe, o turismo é uma importante fonte de emprego e renda em qualquer lugar do mundo, pois movimenta muitos outros setores da economia, inclusive o de serviços. No Pantanal o fluxo de pescadores esportivos vem diminuindo ano após ano, como mostram os levantamentos realizados pelo Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul - SCPESCA/MS.

Se não há peixe para pescar, não há turista pescador e, se não há turista, não há emprego e renda para uma parte significativa da população do Estado. O que fazer então? Os exemplos podem ser vistos em diversos lugares do mundo de como conciliar a pesca voltada para o turismo e lazer e, ao mesmo tempo, conservar o ambiente, incluindo aí, os animais, as plantas, os solos e a qualidade da água dos rios.

Hoje é possível pescar truta e salmão nas águas do Rio Tâmisa, no centro de Londres, ou no Sena, em Paris. Em Seul, na Coréia do Sul, um projeto de “redesenvolvimento” que se iniciou em 82, transformou 36 km de extensão do Rio Han-gang, num bonito complexo de lazer, com pesca, esportes aquáticos, parques e campos esportivos ao longo do rio.

É claro que ninguém está pedindo que se faça o mesmo em todo Estado de Mato Grosso do Sul. O que se quer é que os peixes voltem a povoar os rios, que os turistas pescadores reapareçam e fiquem hospedados por alguns dias em um dos hotéis ou pousadas daqui, saiam satisfeitos e voltem com freqüência.

No próprio Pantanal temos exemplos ilustrativos do potencial de recuperação da fauna. A interrupção da matança do jacaré-do-pantanal pelos coureiros, com finalidade comercial, no final dos anos 80, permitiu, em uma década, a recuperação total da sua população que, hoje, está na casa dos três milhões, possivelmente maior que no início do século passado.

Outras espécies animais, como as araras, as ariranhas, as jacutingas etc., espécies consideradas raras no Pantanal e no Estado, na década de 80, são exemplos adicionais de que a proibição da captura, com remoção de exemplares, e punição dos infratores, aliada à conscientização popular sobre a importância que a fauna e flora naturais têm, deram muito mais vida e beleza ao nosso Estado e demonstram o potencial de recuperação que o ecossistema ainda possui.

O mesmo pode ocorrer com nossos peixes. Quem visita os balneários de Bonito, Jardim, e Miranda, por exemplo, testemunha a grande quantidade e variedade de peixes nos seus rios protegidos. Mas para que isso aconteça, é preciso acabar com a pesca profissional comercial e adotar o sistema “pesque e solte”, para os pescadores esportivos. Essa atitude certamente promoverá a recomposição dos cardumes, que podem e devem ser aproveitados mais racionalmente, gerando muito mais emprego e renda.

Nesse processo, o governo do Estado não pode deixar os verdadeiros pescadores profissionais desassistidos para que possam ter renda condigna sem precisar das cestas básicas e do salário-desemprego dado atualmente, durante o período de piracema. Por que não treiná-los e capacitá-los em outras atividades profissionais compatíveis com sua experiência profissional?

Quem sabe como piloteiros, guias turísticos, na hotelaria, e em outros serviços e atividades correlatas que serão estimuladas pela retomada das atividades de turismo de pesca? Há ainda o entendimento, por parte dos órgãos governamentais, de que é preciso estimular a criação de peixes em cativeiro. Esses profissionais da pesca vêm a calhar! Esta, aliás, seria também uma boa alternativa de renda para os assentados da reforma agrária.

Só isso já seria suficiente para termos de volta boa parte dos cardumes perdidos. Outras medidas são necessárias para assegurar a perpetuação das espécies, como o cumprimento da legislação que determina a reconstituição das matas ciliares, das áreas de captação de água, o controle da poluição das águas e a conservação dos solos. Todas elas, reconhecidamente essenciais para o equilíbrio ecológico restabelecer-se.

Nosso sistema de pesquisa deve sempre atentar para o aperfeiçoamento do sistema de criação em cativeiro, bem como serem mais participativos nas decisões políticas da captura dos peixes, tais como a reportagem da Folha de São Paulo publicada na edição de 22 de fevereiro de 2005 no caderno Folha Ciência (Página A 16). Nessa reportagem, pesquisadores mostram que a captura das fêmeas mais velhas juntamente com os indivíduos maiores, acaba afetando o perfil genético da espécie e, com isso, a recomposição das populações é prejudicada.

Com isso, a quantidade de peixe aumentará, talvez não como há 25 anos, mas pelo menos o suficiente para que o turista-pescador amador pesque, divirta-se, e volte a visitar o Estado, muitas e muitas vezes, criando emprego e renda, para o bem do nosso povo. E, como lhe é de direito, possa contar muitos “causos” de pescador, alguns deles, até verdadeiros!


- * Ivo Bianchin & Araê Boock são pesquisadores da Embrapa e pescadores amadores - Telefone  (67) 368-2027 (bianchin@cnpgc.embrapa.br, arae@cnpgc.embrapa.br )

- ** Hermano J. H. de Melo é escritor e professor universitário (hermelo@terra.com.br)
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