Fábia de Mello Pereira*
A criação racional das abelhas da tribo meliponini e da tribo trigonini
é denominada de meliponicultura. Conhecidas popularmente como abelhas
sem ferrão ou abelhas nativas ou indígenas, essas abelhas possuem
ferrão atrofiado, não conseguindo utilizá-lo como forma de defesa.
Algumas espécies são pouco agressivas, adaptam-se bem a colméias
racionais e ao manejo e produzem um mel saboroso e apreciado. Além do
mel, essas abelhas podem fornecer, para exploração comercial, pólen,
cerume, geoprópolis e os próprios enxames. Outras formas de exploração
são: educação ambiental, turismo ecológico e paisagismo.
A polinização é outro produto importante fornecido pelos meliponideos.
Uma vez que não possuem o ferrão, as abelhas nativas podem ser usadas
com segurança na polinização de espécies vegetais cultivadas no
ambiente fechado da casa de vegetação. Além disso, algumas culturas,
como o pimentão, necessitam que, durante a coleta de alimento, a abelha
exerça movimentos vibratórios em cima da flor para liberação do pólen.
Esse comportamento vibratório é típico de algumas espécies de abelhas
nativas, mas não é observado na abelha africanizada (Apis mellifera),
que não consegue ser um agente polinizador eficiente dessas culturas.
No Brasil são conhecidas mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão que
apresentam grande heterogeneidade na cor, tamanho, forma, hábitos de
nidificação e população dos ninhos. Algumas se adaptam ao manejo,
outras não. Embora vantajosa, a criação racional dessas abelhas é
dificultada pela escassez de informações biológicas e zootécnicas, pois
muitas sequer foram identificadas ao nível de espécie.
Devido a essa diversidade, é fundamental realizar pesquisas sobre
comportamento e reprodução específicas para cada espécie; adaptar
técnicas de manejo e equipamentos; analisar e caracterizar os produtos
fornecidos e estudar formas de conservação do mel que, por conter mais
umidade do que o mel de Apis mellifera, pode fermentar com mais
facilidade. A alta cotação do preço do mel das abelhas nativas no
mercado, que em média varia de R$ 15,00 a 50,00 cada litro, aliada ao
baixo investimento inicial e a facilidade em manter essas abelhas
próximo das residências, tem estimulado novos criadores a iniciarem
nessa atividade.
Entretanto, muitos produtores em busca de enxames para povoarem os
meliponários, acabam atuando como verdadeiros predadores, derrubando
árvores para retirada das colônias, que, muitas vezes, acabam morrendo
devido a falta de cuidado durante o translado e ao manejo inadequado.
Outra causa da morte das colônias é a criação de espécies não adaptadas
à sua região natural. É relativamente comum que produtores iniciantes
ou experientes das regiões Sul e Sudeste do Brasil queiram criar
abelhas nativas adaptadas às regiões Norte e Nordeste, e vice-versa. A
falta de adaptação dessas abelhas às condições ambientais da região em
que são colocadas acabam por matar as colônias, podendo contribuir para
a extinção das mesmas.
A quantidade de colônias nos meliponários também é um fator crucial
para preservação das espécies. Várias pesquisas indicam que, quando a
espécie criada não ocorre naturalmente na região do meliponário, são
necessários pelo menos 40 colônias para garantir uma quantidade de
alelos sexuais e evitar que os acasalamentos consangüíneos provoquem a
morte das mesmas em 15 gerações. Embora somente três espécies de
abelhas estejam na lista de animais em risco de extinção do Ibama
(Exomalopsis (Phanomalopsis) atlantica; Melipona capixaba e Xylocopa
(Diaxylocopa) truxali), e dessas somente a Melipona capixaba é social,
sabe-se que nas reservas florestais a quantidade de ninhos de abelhas
sem ferrão vem se reduzindo ano a ano.
A extinção dessas espécies causará um problema ecológico de enormes
proporções, uma vez que as mesmas são responsáveis, dependendo do
bioma, pela polinização de 80 a 90% das plantas nativas no Brasil.
Assim, o desaparecimento das abelhas causaria a extinção de boa parte
da flora brasileira e de toda a fauna que dependa dessas espécies
vegetais para alimentação ou nidificação. Conscientes do problema, o
governo brasileiro, por meio do Conselho Nacional do Meio Ambiente
(CONAMA) publicou no Diário Oficial da União em 17 de agosto de 2004 a
RESOLUÇÃO Nº 346 DE 06 DE JULHO DE 2004, que disciplina a utilização de
abelhas silvestres nativas, bem como a implementação do meliponário.
Contudo, sabe-se que somente a criação de uma legislação normativa não
é suficiente para preservação de espécies da fauna e flora nativa. É
necessário, também, um programa informativo visando a capacitação e
sensibilização para que os produtores não só sejam conscientizados, mas
também sejam capazes de mobilizar e informar aos seus vizinhos sobre o
problema. Resta, assim, fazer um apelo não só aos governos nos níveis
federais, estaduais e municipais, mas também à sociedade como um todo
para que se comece a divulgar os problemas acarretados pela retirada
indiscriminada dessas abelhas da mata. A criação dos meliponídeos deve
ser realizada com responsabilidade para evitar a extinção das abelhas
e, a médio e longo prazo, a extinção da flora e fauna que dependem
direta ou indiretamente desse importante agente polinizador.
*Pesquisadora da Embrapa Meio-Norte, Teresina-PI, fabia@cpamn.embrapa.br.