Maria Teresa do Rêgo Lopes* e Janina Carvalho Gonçalves**
Até o momento, a apicultura brasileira tem usufruído vantagens que são
amplamente relatadas como fatores favoráveis à produção de mel de
excelente qualidade: floradas nativas abundantes e diversificadas,
clima favorável, a não utilização de produtos químicos nas colméias
para controle de doenças e pragas, entre outros. Tudo isso faz com que
nosso mel tenha características de sabor, cor e aroma diferenciados,
seja livre de resíduos químicos, tendo grande potencial para ser
produzido em sistêmico orgânico.
Nesse contexto, a significativa tolerância das abelhas africanizadas a
doenças, aliada a condições climáticas desfavoráveis à disseminação das
mesmas, têm papel fundamental, pois os problemas sanitários têm
ocorrido a níveis baixos, não justificando a aplicação de antibióticos
e pesticidas.
Entretanto, para que a apicultura brasileira continue a ter essas
vantagens, os apicultores devem ficar atentos à situação sanitária dos
apiários, pois existem riscos de introdução de novas doenças e inimigos
naturais que possam se tornar fatores limitantes à atividade.
Em muitos países, onde a incidência de problemas sanitários das abelhas
é alta, os apicultores costumam sofrer sérios prejuízos tanto pela
perda de colônias, quanto pelos gastos adicionais com a compra de
produtos químicos, geralmente antibióticos e acaricidas. Não é à toa,
portanto, que nas instituições de pesquisa apícola no exterior, grande
parte dos trabalhos estão voltados para o estudo de mecanismos de
controle de doenças e inimigos naturais das abelhas.
Dentre as doenças que causam maiores prejuízos destaca-se a Cria
Pútrida Americana, uma doença bacteriana que tem ocasionado enormes
perdas em todo o mundo e cujo controle é extremamente difícil, pois a
bactéria causadora (Paenibacillus larvae subsp. larvae) produz esporos
que são altamente resistentes ao calor e à desinfecção por diversos
produtos químicos. Essa doença ainda não ocorre no Brasil, apesar de já
terem sido isolados esporos da bactéria em abelhas e mel de colméias,
sem sintomas da doença, no Estado do Rio Grande do Sul. Nesse caso,
foram tomadas medidas imediatas para erradicação do patógeno na região,
com o apoio do Governo brasileiro.
Entretanto, ainda é grande o risco de introdução da doença, uma vez que
já ocorre em países vizinhos, como a Argentina e o Uruguai e pode ser
introduzida por meio de mel e pólen importados contaminados. Nesse
caso, a contaminação pode ocorrer se esses produtos forem oferecidos às
colônias como alimentação suplementar, pois as larvas são infectadas
quando comem alimento contaminado.
Pensando nesse risco, têm sido realizados trabalhos visando o
monitoramento sanitário preventivo em algumas regiões brasileiras. No
Piauí, por exemplo, no período de 2003 a 2004, foi realizada uma
primeira avaliação em amostras de mel coletadas junto a produtores,
empresas e associações do Estado, num projeto cooperativo da Embrapa
Meio-Norte e da Universidade Federal de Viçosa.
Os locais de coleta das amostras foram selecionados em regiões com
maior risco de introdução do patógeno, como as microrregiões e
municípios pólos da atividade apícola e limítrofes com os Estados do
Ceará e Bahia. Felizmente, em todas as amostras analisadas não foram
detectados esporos da bactéria P. larvae subsp. larvae. Pretende-se
realizar, ainda, um monitoramento em amostras de mel de entrepostos e
estabelecimentos comerciais, procurando avaliar também produtos
importados.
No entanto, tão importante quanto a realização desses monitoramentos
preventivos é a conscientização do apicultor sobre os potenciais riscos
e prejuízos decorrentes da introdução de novas doenças e pragas. Para
isso, recomenda-se que os produtores estejam sempre atentos sobre a
saúde de suas abelhas, sabendo reconhecer os sinais e anormalidade que
indiquem a ocorrência de problemas. Essas informações, assim como
medidas preventivas e de controle, podem ser obtidas em cursos de
capacitação e publicações específicas, sendo fundamentais para evitar a
introdução e disseminação de novas doenças e inimigos naturais no País.
*Pesquisadora da Embrapa Meio-Norte, Teresina-PI, mteresa@cpamn.embrapa.br.
**Doutoranda da Universidade Federal de Viçosa.