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Brasil no coração da ciência mundial (13/07/2005)
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Pedro Arraes, Luis Fernando Vieira e Elisio Contini*

labex.jpgNeste século temos acompanhado a unificação da Biologia, na qual disciplinas específicas tendem a consolidar-se em pelo menos dois grandes campos de investigação: da molécula para o organismo e do organismo para o ecossistema. É preciso visualizar e acompanhar as tendências da inovação tecnológica para  promovê-la a menores custos, de forma mais rápida; dar-lhe maior especificidade de ação; adaptá-la para que seja de amplo entendimento e uso universal; utilizá-la para proporcionar aumento significativo na compreensão e manipulação de sistemas; e, finalmente, torná-la capaz de provocar um impacto considerável sobre os valores humanos.

Tecnologias emergentes têm sido disponibilizadas em velocidade espantosa em diversas áreas do conhecimento, como na biologia celular e molecular, na imunologia e diagnóstico de doenças, na descoberta e geração de novas substâncias (com destaque para novos microorganismos e biopolímeros), na nanotecnologia e no uso sustentável de ecossistemas e recursos naturais. Como conseqüência, o conhecimento científico e sua aplicação tornam-se insumos cada vez mais importantes nos processos produtivos - e, em particular, também no agronegécio. Incorporados em máquinas, sementes, meios de produção, arranjos organizacionais, logística, infra-estrutura e comunicação, tornam as pessoas e empresas mais eficientes e eficazes, dando-lhes vantagens competitivas no mercado interno e nas exportações.

Três pólos dominam a geração de ciência e tecnologia no mundo: Estados Unidos, União Européia e Sul da Ásia. Como o Brasil  irá acompanhar e participar desses avanços que, com toda a certeza, terão grande impacto no progresso da ciência e na geração de tecnologias?

Buscando ser um dos protagonistas no processo do avanço científico e tecnológico para o agronegócio, a Embrapa criou o Laboratório Virtual no Exterior (Labex), como um mecanismo destinado a maximizar alianças estratégicas com esses três centros de excelência. Um modo inovador e criativo para estabelecer essa aliança é a presença física de pesquisadores seniores em laboratórios no exterior desde 1998, nos Estados Unidos, quando foi implantado e, a partir de 2002, na Europa, tendo três funções principais: a realização de pesquisas estratégicas em parcerias com centros mundiais de excelência; monitoramento de ciência e tecnologias em áreas de interesse para o Brasil; e, articulação de projetos de interesse comum entre equipes brasileiras, dos Estados Unidos e da Europa.

Este modelo de cooperação científica e tecnológica não substitui os eficientes e tradicionais sistemas de cooperação, como o treinamento formal e de curta duração, participação em seminários e congressos internacionais e visitas técnicas. Mas a presença física de pesquisadores líderes brasileiros em laboratórios de ponta no mundo adiciona vantagens importantes: participação na geração de resultados de pesquisas estratégicas para o desenvolvimento do agronegócio; flexibilidade, já que novas áreas de interesse podem ser acrescidas (ou áreas antigas, substituídas); integração, com a inserção direta em equipes de ponta para participar ativamente do desenvolvimento de tecnologia; baixo custo, já que não se constroem laboratórios, nem se compram equipamentos, mas utiliza-se a infra-estrutura da organização parceira.

O Labex  foi viabilizado a partir de acordos de cooperação com instituições científicas de excelência mundial. Nos EUA o acordo foi feito com o Serviço de Pesquisa Agrícola (www.ars.usda.gov), do Departamento de Agricultura (ARS);  e na Europa, com a Agropolis (www.agropolis.fr), em Montpellier, França. Desde a implantação,  contemplou as seguintes áreas: Agricultura de Precisão; Propriedade Intelectual e Biotecnologia; Manejo Integrado de Enfermidades de Animais; Manejo Integrado de Pragas e Doenças de Plantas; Manejo de Recursos do Solo e da Água; Novos Usos de Produtos Agrícolas; e  Mudança Global de Clima. Mais recentemente tem atuado em Segurança Alimentar; Nanotecnologia; Recursos Genéticos e Biologia Avançada.

A escolha dos pesquisadores da Embrapa que se incorporarão às equipes no exterior é feita por meio de concurso interno, com regras fixadas em editais. O pesquisador permanecerá no laboratório de acolhida por um período de 2 a 4 anos, permitindo-lhe familiarizar-se com o meio científico e estabelecer relacionamentos importantes.

Há que se destacar que desde a implantação do Labex, surgiram diversos projetos inovadores na Embrapa, permitindo a formação de redes de pesquisa em temas de alta complexidade. Muitas vezes, essas redes extrapolam a fronteira brasileira e enfocam problemas que afetam todo um continente. No momento, estão sendo consolidados importantes temas como: agroenergia; dejetos animais, com enfoque em modelagem do movimento de patógenos no solo; alimentos funcionais, estudo de patógenos em alimentos com estudos de modelagem de predição, biossegurança; e presença significativa nas redes de pesquisa dos Challenge Programs do CGIAR (www.cgiar.org), notadamente naquelas relacionadas com Recursos Genéticos.

Os principais resultados obtidos referem-se a incorporação de conhecimentos sobre gestão de propriedade intelectual; pesquisas sobre sanidade animal, em especial modelos de prevenção da BSE (mal da vaca louca); desenvolvimento e incorporação de conceitos de agricultura de precisão adaptados aos agroecossistemas brasileiros; identificação de novos genes, responsáveis pela resposta ao estresse hidrico e estudo de sua expressão e função biológica; identificação de duas novas fontes de enzimas vegetais derivadas da biomassa brasileira; aplicação de técnicas de teledetecção de alta resolução espectral e espacial, para avaliar os impactos da atividade agrícola sobre a água e o solo; compreensão da política agrícola comum (PAC) da União Européia e seus impactos sobre o agronegócio brasileiro; pesquisas sobre a dinâmica de carbono em agroecossistemas; e usos não alimentares da produção agrícola.

Em quase oito anos existência, os pesquisadores do Labex participaram de 200 congressos internacionais, aproximadamente 400 pesquisadores brasileiros estiveram na Europa e nos Estados Unidos em visitas técnicas e 25 missões americanas e européias estiveram no Brasil, buscando concretizar projetos de interesse comum.

É importante para o Labex, como projeto de longo prazo, a continuidade e a ampliação de sua área geográfica de atuação, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Além de consolidar sua presença no pólo científico em agricultura tropical de Montpellier, o Labex, neste ano, tem como perspectiva, estar presente na Holanda, Alemanha e Reino Unido. Para ampliar os serviços em rede a pesquisadores brasileiros, os Labex buscam integrar, às suas atividades, pesquisadores em treinamento de doutorado e pós-doutorado. O objetivo é ampliar a capacidade de difusão, aos grupos brasileiros, das inovações de geração de ciência e tecnologia nestes centros desenvolvidos. Assim, internacionaliza-se a pesquisa agropecuária brasileira e garante-se ao agronegócio do País suprimento de tecnologia de ponta, condição sine qua non para a sua competitividade. A Embrapa planeja, no futuro, implementar um novo Labex no sul da Ásia, provavelmente na China.

Por seu turno, as equipes das instituições parceiras reconhecem a qualidade da cooperação com o Brasil, a qualidade da pesquisa realizada pelos pesquisadores brasileiros e o papel de articulação desenvolvido, que amplia seu espaço de interação no Brasil e abre portas de outras instituições, propiciando novas oportunidades de captação de recursos para financiamento de pesquisas. Novos projetos foram construídos e muitos estudantes de doutorado, pós-doutorado e curta duração foram atraídos. A avaliação geral é que o Labex impulsionou, para um novo e mais alto nível, as relações científicas entre o Brasil e as instituições de pesquisa dos países desenvolvidos.

Incorporação de ciência mundial no agronegócio brasileiro é garantia de sua competitividade presente e futura! O Labex tem se mostrado um instrumento eficaz para dinamizar esta incorporação.


- Artigo publicado na Revista Agroanalysisde abri de 2005
- *Pedro Arraes é coordenador do Labex-USA; Luis Fernando Vieira é coordenador do Labex-França; e Elisio Contini é chefe da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - pedro.arraes@nps.ars.usda.gov, vieira@agropolis.fr, elisio.contini@embrapa.br
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