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Cooperação Internacional (08/07/2005)
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Sebastião Barbosa e Sotto Pacheco Costa*

O Brasil tem uma nova moeda de troca. É forte, rara e respeitada em todo o mundo. Chama-se ciência e tecnologia para a agropecuária tropical. Ninguém tem uma igual, já que foi criada com muita dedicação e visão de futuro. A decisão de fundar a Embrapa foi motivada pela inexistência de base científica e tecnológica para as condições tropicais, o que não permitia que o Brasil desse o salto de qualidade necessário para sair do subdesenvolvimento e cumprir seu papel tão esperado de celeiro do mundo. Hoje temos condições de transferir conhecimento e tecnologia para que países mais pobres, localizados na zona tropical, possam diminuir sua insegurança alimentar e aliviar sua pobreza, por intermédio do desenvolvimento de seu agronegócio.    

A conquista dos cerrados, a fixação biológica de nitrogênio, a tropicalização da soja, novas cultivares de plantas, o zoneamento agrícola, o manejo integrado de pragas são apenas alguns exemplos do êxito alcançado pela Embrapa e seus parceiros no Brasil e que têm demonstrado interesse em todo o mundo.

O caminho de Washington - Foi por intermédio da cooperação internacional intensa desde seus primórdios, com agências internacionais ligadas ao setor, bancos de desenvolvimento, universidades e centros de pesquisa de países industrializados que a Embrapa pode equipar seus centros nacionais de pesquisa e capacitar seus recursos humanos.

A necessidade de manter a Embrapa no limiar do conhecimento para garantir o progresso continuado do agronegócio brasileiro direcionam para a consolidação das parcerias internacionais existentes com o mundo desenvolvido e para o estabelecimento de novas modalidades de cooperação para o futuro. Nesse sentido, os Laboratórios Virtuais da Embrapa no Exterior (Labex) constituem-se em uma nova dimensão de cooperação internacional, que poderá ser expandida em número de pesquisadores e de laboratórios internacionais envolvidos.

O Caminho de Delhi - Assim como o Brasil, outros países investiram pesadamente em ciência e tecnologia para o agronegócio e alguns útimos exemplos são a África do Sul, a China e a Índia, parceiros ideais para o estabelecimento de vias duplas de cooperação. A nós interessa, por exemplo, germoplasmas de citros e soja dos quais a China é reconhecidamente o centro de origem. Aos chineses, o arroz de sequeiro, amendoim e outras plantas originárias do ambiente brasileiro. Indianos querem conhecer nossos processos de produção agrícola e nós, seus avanços na agricultura familiar. Com a África do Sul, temos interesse em suas raças de caprinos altamente produtivas e eles, na alta produtividade de nossa pecuária de carne.

O Caminho para a Savana Africana - Razões de solidariedade humana já seriam suficientes para um esforço concentrado da Embrapa em países africanos, principalmente aqueles vinculados à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, além daquelas de ordem étnica e cultural ligadas à formação de nossa gente que fortemente nos chamam a trilhar este caminho. O Brasil pode e deve oferecer cooperação científica e tecnológica aos países africanos, com o grande objetivo de aumentar a produção de alimentos básicos e contribuir para a redução de sua pobreza, principalmente através de pesquisa adaptativa que permita a transferência relativamente rápida de conhecimento e produtos. Mandioca, batata-doce, milho, sorgo, hortaliças e frutas são áreas de interesse de diversos países africanos e para as quais a Embrapa detém tecnologias simples que lá poderão fazer uma grande diferença.

O Caminho de Bolívar - Declarada oficialmente pelo Presidente Lula como prioritária para programas de cooperação, as regiões da América Central, Caribe e América do Sul deverão ser objeto prioritário para a cooperação internacional da Embrapa. Haverá casos de cooperação mútua, abrindo a possibilidade de uma avenida de mão dupla, unindo a Embrapa aos Institutos Nacionais de Investigação Agropecuária (INIAs) da região na busca de soluções para os problemas comuns, como ferrugem da soja, bicudo do algodoeiro, recuperação de áreas degradadas, agricultura de precisão e plantio direto. Programas e consórcios regionais são parceiros importantes para facilitar a cooperação entre os diferentes sistemas nacionais de pesquisa agropecuária na região. Há, entretanto, países que nem sequer contam com sistema organizado de pesquisa agropecuária, onde a Embrapa poderá oferecer a experiência bem sucedida de seu modelo e sua capacidade acumulada em gerência de ciência e tecnologia para o campo.

Quem Vai Pagar a Conta - A realidade é bastante simples: temos nossos próprios problemas a resolver e nos faltam recursos. Não justifica, por mais solidários que queiramos ser, usar os limitados recursos financeiros da Embrapa para oferecer cooperação a países em situação pior que a nossa. Podemos, sim, oferecer o conhecimento de nossos pesquisadores e as experiências contidas nos laboratórios, campos experimentais e bibliotecas, enquanto outros custos operacionais terão que ser cobertos por fontes externas. A Agência Brasileira de Cooperação tem contribuído para levar a tecnologia da Embrapa aos países mais pobres do mundo, mas também lá os recursos são limitados. Os organismos internacionais de cooperação multilateral também estão sem recursos e, de maneira geral, administram fundos de governos para garantir sua própria existência.

Teremos que ser criativos para trabalhar com os organismos das Nações Unidas, contando com sua infra-estrutura administrativa e operacional existente nos países em desenvolvimento, bem como para desenhar uma triangulação construtiva (cooperação trilateral), em que um país industrializado reconhece a capacidade existente na Embrapa e vê a possibilidade de nossa tecnologia ser transferida em prol do desenvolvimento de um terceiro país, pagando a conta desta transferência. Outra possibilidade é o estabelecimento de parceria com empresas brasileiras operando no exterior, a exemplo da Petrobrás, em Angola; a CVRD, em Moçambique; e a Odebretch, no Peru e no Equador.


- Artigo publicado na Revista Agroanalysis de abril de 2005
- *Sebastião Barbosa e Sotto Pacheco Costa são, respectivamente, Coordenador e Coordenador Adjunto de Cooperação Internacional da Embrapa - sebastiao.barbosa@embrapa.br - sotto.costa@embrapa.br.
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