Agroenergia
(06/07/2005)
A argumentação a favor da energia da biomassa cinge-se a três
fundamentos: o petróleo é finito, como também o são os combustíveis
fósseis, e deve exaurir ou ficar muito caro num horizonte de 50 anos; a
queima de combustíveis fósseis está produzindo o aquecimento global,
de conseqüências funestas para o planeta Terra; e, finalmente, esta
queima é a causa mais importante da poluição ambiental, principalmente,
nas grandes cidades.
Mesmo que se diga que as descobertas de novas reservas de petróleo estejam superando o crescimento da demanda, o argumento da exaustão é robusto, porque a terra tem dimensões finitas, e as ocorrências de petróleo se limitam a uma pequena área do globo terrestre. O crescimento do consumo, a taxas elevadas, apressará a exaustão. Já o aquecimento global fica cada vez mais bem estabelecido pelas evidências que se acumulam. A poluição das cidades, de tão conhecida que é, não precisa ser enfatizada.
Os argumentos que se baseiam nestes três fundamentos, exaustão, aquecimento global e poluição das cidades, são excelentes para sensibilizar os governos, os leigos e a opinião pública, mas insuficientes para moverem os corações frios da iniciativa particular que busca o lucro. Isto é devido a uma razão elementar: é dele que ela sobrevive. E sempre resta uma dúvida para a iniciativa particular: e se vier a energia do hidrogênio? Diz-se que esta tecnologia vai demorar a ser gerada, mas a história da ciência tende a desmentir estes vaticínios.
Se a tecnologia alternativa custar mais cara que a baseada nos combustíveis fósseis, os governos vão ter que bancar as contas. Contudo, os tesouros do mundo exauriram bem antes do petróleo, assim esta avenida está definitivamente trancada.
Do ponto de vista do resto do mundo, um dos caminhos é exportar bioenergia e, para isto, temos que ser competitivos, mais eficientes que os concorrentes. Mas isto não basta: temos também que competir com o combustível fóssil. Certamente haverá boa vontade para pequenas diferenças de preço, em nome do aquecimento global, em nome da exaustão e da poluição ambiental. Mas grandes diferenças de preços, da ordem de mais de 10%, inviabilizarão qualquer programa de bioenergia.
Outro caminho é atrair investimentos. No que já é um sucesso, como o álcool, não existem complicações. A complicação maior está na troca de direitos de poluir. Por exemplo, uma empresa de um país desenvolvido quer investir no seqüestro de carbono no Brasil para manter os índices de poluição ou diminuí-los numa proporção menor. Ora, nossa legislação ambiental, muito baseada no comando e no controle, está longe de fornecer as garantias necessárias. Qual investidor quer ter seu investimento seqüestrado pelo poder público, em função de uma legislação inadequada? Mesmo no direito internacional, muito há que se caminhar para transformar sonhos em realidade. Do ponto de vista de atrair investimentos externos, o biodiesel precisa aduzir evidências de sua sustentabilidade econômica de longo prazo e, até que isto ocorra, precisará de uma política governamental específica, nos moldes da estabelecida pelo governo brasileiro.
Produzir barato e em grande escala é o fundamento do capitalismo moderno. Em nível de produtor, as novas tecnologias são básicas à redução dos custos de produção. No álcool, estamos bem, tanto no que se refere à indústria como à agricultura. Temos, contudo, de ampliar os investimentos em pesquisa no pólo São Paulo e, mais ainda, na área tributária do porto de São Luís. Em seqüestro de carbono, a caminhada é bem mais longa. Na produção de biodiesel há muito a se fazer em culturas como mamona e dendê, embora estejamos muito adiantados na soja, no girassol e no algodão. Mas o modelo de pesquisa em bioenergia tem que se antecipar ao que ocorrerá, de um modo geral, e ser baseado no casamento da pesquisa pública com a iniciativa particular, assim no pólo paulista como em outras regiões do Brasil, especialmente no Nordeste.
- Artigo publicado na Revista Agroanalysis de abril de 2005
- *Eliseu Alves é pesquisador e assessor da Presidência da Embrapa - eliseu.alves@embrapa.br
Eliseu Alves*
A argumentação a favor da energia da biomassa cinge-se a três
fundamentos: o petróleo é finito, como também o são os combustíveis
fósseis, e deve exaurir ou ficar muito caro num horizonte de 50 anos; a
queima de combustíveis fósseis está produzindo o aquecimento global,
de conseqüências funestas para o planeta Terra; e, finalmente, esta
queima é a causa mais importante da poluição ambiental, principalmente,
nas grandes cidades. Mesmo que se diga que as descobertas de novas reservas de petróleo estejam superando o crescimento da demanda, o argumento da exaustão é robusto, porque a terra tem dimensões finitas, e as ocorrências de petróleo se limitam a uma pequena área do globo terrestre. O crescimento do consumo, a taxas elevadas, apressará a exaustão. Já o aquecimento global fica cada vez mais bem estabelecido pelas evidências que se acumulam. A poluição das cidades, de tão conhecida que é, não precisa ser enfatizada.
Os argumentos que se baseiam nestes três fundamentos, exaustão, aquecimento global e poluição das cidades, são excelentes para sensibilizar os governos, os leigos e a opinião pública, mas insuficientes para moverem os corações frios da iniciativa particular que busca o lucro. Isto é devido a uma razão elementar: é dele que ela sobrevive. E sempre resta uma dúvida para a iniciativa particular: e se vier a energia do hidrogênio? Diz-se que esta tecnologia vai demorar a ser gerada, mas a história da ciência tende a desmentir estes vaticínios.
Se a tecnologia alternativa custar mais cara que a baseada nos combustíveis fósseis, os governos vão ter que bancar as contas. Contudo, os tesouros do mundo exauriram bem antes do petróleo, assim esta avenida está definitivamente trancada.
Do ponto de vista do resto do mundo, um dos caminhos é exportar bioenergia e, para isto, temos que ser competitivos, mais eficientes que os concorrentes. Mas isto não basta: temos também que competir com o combustível fóssil. Certamente haverá boa vontade para pequenas diferenças de preço, em nome do aquecimento global, em nome da exaustão e da poluição ambiental. Mas grandes diferenças de preços, da ordem de mais de 10%, inviabilizarão qualquer programa de bioenergia.
Outro caminho é atrair investimentos. No que já é um sucesso, como o álcool, não existem complicações. A complicação maior está na troca de direitos de poluir. Por exemplo, uma empresa de um país desenvolvido quer investir no seqüestro de carbono no Brasil para manter os índices de poluição ou diminuí-los numa proporção menor. Ora, nossa legislação ambiental, muito baseada no comando e no controle, está longe de fornecer as garantias necessárias. Qual investidor quer ter seu investimento seqüestrado pelo poder público, em função de uma legislação inadequada? Mesmo no direito internacional, muito há que se caminhar para transformar sonhos em realidade. Do ponto de vista de atrair investimentos externos, o biodiesel precisa aduzir evidências de sua sustentabilidade econômica de longo prazo e, até que isto ocorra, precisará de uma política governamental específica, nos moldes da estabelecida pelo governo brasileiro.
Produzir barato e em grande escala é o fundamento do capitalismo moderno. Em nível de produtor, as novas tecnologias são básicas à redução dos custos de produção. No álcool, estamos bem, tanto no que se refere à indústria como à agricultura. Temos, contudo, de ampliar os investimentos em pesquisa no pólo São Paulo e, mais ainda, na área tributária do porto de São Luís. Em seqüestro de carbono, a caminhada é bem mais longa. Na produção de biodiesel há muito a se fazer em culturas como mamona e dendê, embora estejamos muito adiantados na soja, no girassol e no algodão. Mas o modelo de pesquisa em bioenergia tem que se antecipar ao que ocorrerá, de um modo geral, e ser baseado no casamento da pesquisa pública com a iniciativa particular, assim no pólo paulista como em outras regiões do Brasil, especialmente no Nordeste.
- Artigo publicado na Revista Agroanalysis de abril de 2005
- *Eliseu Alves é pesquisador e assessor da Presidência da Embrapa - eliseu.alves@embrapa.br