- Afonso Celso Candeira Valois
De maneira geral, o agronegócio tem como escopo a soma das operações de produção, comercialização e distribuição de suprimentos agrícolas, das operações de produção nas unidades agrícolas, além do armazenamento, processamento, comercialização e distribuição dos produtos agrícolas e dos itens produzidos a partir dos mesmos.
No pleno exercício de um agronegócio moderno, nos anos 70 o Brasil conseguiu vislumbrar um futuro promissor que o situou em posição adiantada em relação a outros países competidores, através de pesados investimentos em pesquisa agropecuária, defesa sanitária, infra-estrutura e extensão rural, fazendo com que o País alcançasse espetaculares produção e produtividade em agricultura e pecuária, o que elevou substancialmente as exportações brasileiras e conseqüente entrada de formidáveis divisas no País.
Além disso, o Brasil experimentou a memorável antecipação corretiva do atual e grande dilema energético, através de substanciais investimentos em etanol de cana-de-açúcar, de reconhecimento internacional. No entanto, desse caso específico o País tirou preciosos ensinamentos no sentido de sempre exercitar o planejamento estratégico de seus esforços e ações, pois com o lançamento do Proálcool não foi considerado que tanto o biocombustível como o açúcar tinham como fonte de suprimento a mesma cana-de-açúcar e que a lei da oferta e da procura, além do desbalanceamento de preços poderiam favorecer um em detrimento do outro.
Isso aconteceu em 1989, quando a alta do preço do açúcar resultou no desabastecimento em etanol e assim, os usuários de carro a álcool deixaram de adquirir os veículos e o programa considerado um modelo para o mundo quase sucumbiu. Mas, o atual equilíbrio de preços e outras oportunidades como a fabricação inovadora de carros de motor flexível e a produção sustentável de grãos, fibras e biocombustíveis conduzem o Brasil a ser, talvez, o País de maior competitividade no setor, pois os demais países consumidores e competidores, em sua maioria, têm nos grãos as mesmas fontes para produção de alimentos e biocombustíveis, o que não é o caso brasileiro, onde é perfeitamente possível incrementar a produção simultânea de alimentos e bioenergia diante da existência das vantagens comparativas das fontes alternativas e das tecnologias disponíveis, além do elevado potencial da incorporação de novas áreas ao processo produtivo.
O programa de energia que atualmente está sendo traçado promete a inserção de pequenos agricultores nas cadeias produtivas estruturando contratos de fornecimento, o que sugere a oportunidade para evidenciar e desenvolver o tema da arquitetura dos contratos antes que possíveis conflitos possam acontecer no futuro.
No âmbito do agronegócio plausível, o sucesso dos produtores será determinado pela capacidade de reduzir custos em escala global, onde para estarem inseridos nas redes nacionais e internacionais, formalizando contratos agroindustriais e compondo entidades modernas de representação no agronegócio serão forçados a correr cada vez mais rápido na direção dos ganhos de produtividade com sustentabilidade, bem como na exploração de economias de escala e alvos pragmáticos. Será de grande valia a articulação entre o pequeno, médio e grande produtor, para o que a adoção de tecnologias apropriadas e complementares será de grande relevância.
Os agricultores do futuro terão que ser mais capazes no processo de gerenciamento de contratos complexos, como exemplo, com indústrias fornecedoras de máquinas e insumos com vista à mecanização, agricultura de precisão, irrigação e drenagem, biotecnologia, nanotecnologia e outras, onde cada vez mais deve ser evitado o isolamento e proceder a organização em associações, cooperativas e sindicatos, além de outras formas de fortalecimento da pessoa física e jurídica. Esses contratos complexos, com crescente coordenação vertical marcarão sobremaneira as relações entre o varejo, a agroindústria processadora e os agricultores, pois as exigências do futuro nos mostrarão a pressão constante por novos atributos de qualidade e sanidade dos produtos, classificação, rotulagem, certificação, rastreabilidade e outras exigências.
Em decorrência de os países desenvolvidos tenderem a ampliar o leque de restrições sanitárias, laboriais e religiosas, controle dos perigos físicos, químicos e biológicos nos alimentos, pressão contra o desmatamento, critérios para o bem-estar dos animais e atenção aos protocolos oficiais e privados, a tendência é para o incremento substancial das barreiras não-tarifárias ou técnicas, seja na esfera pública, seja por pressão direta dos consumidores e empresas privadas.
Com legitimidade ou não, essas barreiras farão parte do cotidiano do agronegócio nas próximas décadas, exigindo profissionalismo, conteúdo técnico para um diálogo aberto e justo, estabelecimento de um forte programa de segurança biológica com a firme atuação de uma autoridade nacional constituída, além da maior coordenação pública e privada. Por exemplo, o rígido seguimento das Normas Internacionais de Medidas Fitossanitárias (NIMF) será de extrema valia.
Entretanto, para a condução de um agronegócio rentável, o Brasil precisa rever imediatamente os óbices atualmente em franca evidência relacionados à forte redução dos gastos públicos com agricultura, pulverização de programas em ministérios antagônicos em relação ao pleno sucesso do agronegócio, além da lamentável deterioração dos gastos para a manutenção e ampliação dos bens públicos que tanto contribuíram eficazmente para a elevação da competitividade brasileira, com destaque para a atual situação desconfortável da pesquisa agropecuária, sanidade animal e vegetal, infra-estrutura e assistência técnica e extensão rural. Para o caso específico da pesquisa agropecuária, a mesma busca ser eficiente, ainda que os recursos principalmente financeiros sejam liberados com vagar e os orçamentos nem sempre sejam cumpridos.
A orientação básica plausível quanto ao futuro do agronegócio está na direção de que antes de antecipar as prioridades é de fundamental importância analisar as suas tendências globais para as próximas décadas.
Enquanto isso, a política agrícola brasileira se assenta sobre os pilares de mecanismos de sustentação de renda agrícola, crédito e pesquisa agropecuária. Novos temas como análise de riscos, redobrada atenção às mudanças climáticas, rígido controle de espécies invasoras exóticas danosas à agropecuária, sanidade animal e vegetal, segurança dos alimentos e a devida inserção internacional precisam de continuada sustentação na agenda nacional nos próximos anos, para o pleno sucesso do agronegócio empresarial e familiar. O uso sustentável da biodiversidade e da agrobiodiversidade são também temas de grande relevância e vantajosos para o Brasil, considerando os devidos cuidados com o meio ambiente e o desenvolvimento social, econômico, cultural, ético e histórico da sociedade.
O lado progressista do agronegócio nas próximas décadas refere-se ao crescimento exponencial da demanda por alimentos, fibras e bioenergia, onde milhões de novos consumidores irão emergir em regiões com enormes limitações de recursos naturais, principalmente quanto a deficiência na disponibilidade de água e terras aráveis, como acontece no Leste da Ásia e no Oriente Médio. Dentro de uma visão holística, a explosão do consumo será conseqüência de várias constatações, com destaque para as seguintes: aumento da renda per capita dos consumidores mais pobres, urbanização acelerada e mudança de hábitos alimentares na direção de carnes, lácteos e frutas, com ênfase na procura e consumo de alimentos funcionais, que por sua vez necessitam de maior divulgação no nível nacional para o incremento do entendimento e percepção pública da importância de suas aplicações.
Além disso, com a crescente importação dos produtos agropecuários, cada vez mais os exportadores terão que se esmerar na mudança de hábito, atitude, postura e cultura, especialmente na correta aplicação das boas práticas agrícolas/agropecuárias (BPA) e de fabricação (BPF), para a produção de alimentos seguros, isto é, aqueles que foram objeto de rígido controle de perigos significativos ao longo de toda a cadeia produtiva através de intervenções plausíveis, como medidas sanitárias e aplicação dos princípios de análise de perigos e pontos críticos de controle (APPCC).
O novo patamar elevado dos preços do petróleo além das suas características de não ser renovável aumentará ainda mais a procura por biocombustíveis (renováveis), com destaque para o etanol da cana-de-açúcar e milho, assim como o biodiesel do dendê, soja, girassol, colza, mamona, pinhão manso e outras alternativas viáveis.
No entanto, as perspectivas otimistas conduzem à acertiva de que o consumo em geral crescerá mais pelo lado das quantidades do que propriamente pela redução dos preços, que por seu lado continuarão com um comportamento cíclico.
Associar a atuação do setor produtivo em corretas condições convergentes com o uso das tecnologias apropriadas em perfeita harmonia com a proteção do meio ambiente já é um grande desafio e será ainda maior na condução do agronegócio que se avizinha. Nas próximas décadas será muito mais ainda primordial a junção da produção e produtividade com a sustentabilidade, considerando um enfoque sistêmico com multifuncionalidade, ou seja, o conjunto das contribuições do agronegócio familiar e empresarial para o desenvolvimento econômico, social, cultural, ético e comercial de uma região, com a visão do compromisso ambiental e politicamente legal e transparente.
Ao longo das próximas décadas será ainda premente o exercício das ações cíclicas do alinhamento e realinhamento das atividades do zoneamento agroecológico, ordenamento territorial seguido de consistentes políticas públicas, além da gestão social, econômica, ambiental, ética e cultural de territórios rurais. Haverá ainda como meta a garantia de quatro objetivos relevantes, ou seja, reduzir a instabilidade do mercado, aumentar as exportações a longo prazo, assegurar a renda mínima do produtor e satisfazer a demanda dos consumidores.
Com máxima atenção à reclamada adequação, a pesquisa agropecuária, defesa sanitária e extensão rural nas próximas décadas continuarão formando um majestoso tripé dos ganhos de eficiência, eficácia e efetividade do agronegócio brasileiro, que fortalecerão ainda mais a segurança alimentar e nutricional, baratearão os preços dos alimentos no mercado doméstico e gerarão mais divisas nas exportações.
Tudo isso terá como base uma política agrícola autóctone, inclusive para o resgate dos bens públicos para a geração de uma revolução agrícola renovada para bem executar o seu papel na premente necessidade da municipalização do desenvolvimento do Brasil.
- Pesquisador com Pós- doutorado em biotecnologia de plantas pela Universidade Estadual do Novo México
