Ir além do aspecto técnico e dialogar com os produtores sobre questões referentes à realidade local, proporcionar a interação com o espaço das Unidades Demonstrativas (UDs) para provocar uma reflexão sobre os resultados obtidos e construir as ações futuras.
Com esta abordagem, a Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju, SE), Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, pecuária e Abastecimento, acredita que a transferência de tecnologias para o meio rural será mais eficaz.
E foi seguindo essas premissas que a Área de Negócios para Transferência de Tecnologia (ANT) da Embrapa Tabuleiros Costeiros promoveu o encontro técnico para avaliação de Unidade Demonstrativa (UD) sobre cultivares de mandioca e macaxeira, em Neópolis, no Baixo São Francisco Sergipano. O encontro aconteceu na sexta-feira (3) no Galpão Comunitário da Comunidade Mundéu da Onça, onde 21 famílias de posseiros, organizados em associação, vivem do que plantam e colhem da terra.
O objetivo do encontro foi apresentar e discutir o trabalho desenvolvido em parceria com a Associação Comunitária dos Posseiros sobre as UDs de mandioca e macaxeira implantadas na localidade em 2009. Ao todo, 13 variedades de mandioca, sendo uma do próprio local, e quatro de macaxeira foram instaladas para avaliação de aceitação pelos agricultores.
Avaliação
Após apresentações dos presentes – agricultores locais e de comunidades vizinhas, representantes de movimentos sociais pela reforma agrária, técnicos em extensão rural e agentes dos governos municipal e estadual, o supervisor da ANT, Fernando Curado, ouviu as impressões e expectativas dos trabalhadores rurais sobre o projeto.
Paulo Sérgio da Mota, assistente da ANT, apresentou o passo-a-passo do projeto até o momento, desde as primeiras discussões para implantação da UD, em julho de 2009. Em seguida, todos foram a campo para coletar e avaliar as amostras de cada uma das variedades. Os pontos avaliados foram volume e qualidade da raiz, além da parte aérea – maniva e folhas.
Divididos em três grupos, acompanhados por técnicos da ANT, que anotavam todas as opiniões, os agricultores familiares percorreram a toda área da UD, extraindo uma planta de amostra e dando as suas impressões sobre cada cultivar. Tiveram destaque, na visão da comunidade, variedades como a Kiriris, Poti Branca e Caipira, por apresentarem parte aérea e raiz mais volumosas e de melhor aspecto visual.
Comparação
Na volta ao galpão, com amostras e opiniões coletadas, os agricultores puderam ver as medições de produtividade feitas pelos técnicos da ANT no dia anterior, e confrontar as suas impressões com os dados técnicos.
Segundo Paulo Sérgio, foi interessante perceber o grau de surpresa dos produtores com a alta produtividade de variedades que eles não tinham muita crença que dariam bons resultados. “A própria Pretinha, variedade local, causou surpresa, com produtividade de 20 toneladas por hectare”, revelou o técnico.
Ele ressalta que os bons números de produtividade são decorrentes da aplicação de técnicas de manejo, sistema de cultivo e tratos culturais mais adequados. “Isto reforça a nossa abordagem de valorização do conhecimento e dos materiais nativos”, destaca.
As variedades Tapioqueira, Lagoão e Irará, além da Poti Branca e Kiriris, apresentaram destaque na produtividade de raiz, maniva e altura da planta, segundo as avaliações feitas pela Embrapa. Entre as macaxeiras, as que surpreenderam foram a Dourada e a Jari, que é biofortificada. “Esta última, apesar de ter sido deixada de lado por eles no início, por não ter desenvolvimento tão precoce quanto as outras, produziu mesmo sem ter trato cultural”, constatou Paulo.
Ações
Os próximos passos dentro do projeto serão a montagem de um sistema de multiplicação de sementes e um novo plantio com seis ou sete variedades que apresentaram maior produtividade – acima de 25 ton/ha.
A ideia é que a UD da comunidade sirva de polo, facilitando as ações de transferência de tecnologias para as comunidades de agricultores do território rural Baixo São Francisco Sergipano e outras localidades semelhantes.
Para Fernando Curado, essa abordagem faz com que as UDs sejam construídas de maneira mais articulada com as realidades locais dos grupos de agricultores. “Queremos impulsionar a participação da comunidade não apenas na avaliação de resultados, mas no acompanhamento de todo o processo”, afirmou.
Ele acredita que esse modelo facilita todas as ações de transferência, como os dias de campo e as avaliações de adoção e aceitação de variedades, tendo as UDs como a base fundamental para todos os trabalhos, envolvendo a comunidade local e as demais vizinhas, num novo ambiente de inovação social.
Para a presidente da Associação dos Posseiros do Mundéu da Onça, Elizete Santos, o trabalho está dando excelentes resultados. “Começamos no ano passado, vimos os bons resultados e, se depender de nós, esse trabalho vai continuar para sempre. E olhe que nós plantamos já no final do inverno. Se tivéssemos plantado um pouco mais cedo, a produtividade seria ainda maior”, disse.
Carlos Guedes, ex-prefeito e atual chefe de gabinete da Prefeitura de Neópolis, é técnico agrícola de formação. Para ele, a importância do projeto é imensa. “Esse trabalho da Embrapa vai nortear as ações da comunidade Mundéu da Onça e promover mais desenvolvimento, com aumento da produtividade da mandioca para farinha, reconhecendo e aproveitando o seu potencial e a sua vocação”, declarou.
Saulo Coelho (MTb/SE 1065)
Embrapa Tabuleiros Costeiros
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