Está certo que os caprinos são animais resistentes, os mais adaptados
aos rigores do ambiente semi-árido nos períodos de estiagem. Contudo,
não precisam ser deixados à própria sorte quando a seca avança sobre o
sertão e a única abundância nas propriedades são os restos de culturas,
galhos e gravetos ressequidos. Com um pouco de recursos, o criador pode
transformar este material endurecido, sem qualquer valor nutricional, em
uma boa forragem para bodes e cabras.
O melhor é que nesta alteração não está envolvido qualquer insumo
técnico sofisticado ou complexo. A recuperação da qualidade forrageira
de mato seco, em especial as palhas de culturas perdidas nas roças, é um
processo simples que envolve água e uréia, num processo conhecido como
amoniação. Misturados e acondicionados em uma lona plástica, a uréia se
transforma em amônia, um gás que tem a capacidade de amolecer o material
endurecido pela seca e ainda recuperar parte da sua proteína.
Barato - Segundo o engenheiro agrônomo Cândido Roberto de Araújo, um
capim verde pode chegar a ter 11% de proteína bruta. Na seca, este valor
cai para 2-3% - valor bem abaixo dos 8% diários necessários para que um
animal possa se manter em condições de não definhar seu potencial
produtivo de leite e carne, além de dar crias saudáveis. Tratado com a
mistura de água e uréia, o capim seco não voltaria a ter o teor de
proteína da época de chuva, mas atingiria o teor mínimo para garantir ao
animal bom desempenho agronômico, explica.
Para quem não fez silo ou feno no tempo das chuvas, esta é uma
alternativa barata, fácil de fazer e que engorda os animais, afirma do
engenheiro agrônomo Elder Manoel de Moura Rocha, responsável pela Área
de Comunicação e Negócios da Embrapa Semi-Árido. Nos períodos mais
intensos da seca, recorrer a esta técnica de amoniação é uma boa decisão
para melhorar a dieta dos seus rebanhos, garante.
No dia de campo realizado na comunidade de Santiago, município de Bela
Vista – PI, o agricultor Francisco Barbosa Coelho afirmou que o capim
quando ficava seco era como se não servisse para nada. “Lá na roça era
todo perdido, nunca achei que daria para fazer comida”. Do tanto que
poderia juntar de mato seco, ele estima que daria para preparar uns 200
kg desse material e passar pela amoniação. “Ia melhorar bastante a
condição do criatório nesses dias de seca”.
Outro agricultor, José Joaquim Marques, acha que poderia amoniar uns 500
kg com o que tem na sua roça, entre restos de palha de milho e capim.
Ele também diz desconhecer que pudesse aproveitar um material tão seco e
endurecido como o que se vê nos pastos, vários meses após passar o tempo
das chuvas no sertão. “Do jeito que estou vendo, vai dar para aproveitar
até galho fino. É uma técnica que pode nos ajudar muito a manter o
rebanho em boas condições e não deixar os bichos sofrerem quando faltar
a forragem do silo e do feno”.
Como fazer – Na mistura de água e uréia, o agricultor precisa estar
atento às quantidades de cada um dos produtos. Cândido Roberto explica
que a solução é feita na proporção de 1 kg de uréia para 5 litros de
água, no mínimo. Ela deve ser aplicada à base de 5% do material a ser
tratado. Este material deve ser triturado ou quebrado e arrumado sobre
uma lona plástica em camadas compactadas de aproximadamente 30 cm. Sobre
cada uma delas se derrama a solução. Ao final, é só fechar a lona
deixando um pouco folgada e sem nenhum vazamento para que o gás de
amônia não escape e atue para amolecer a palhada.
Esta lona só deve ser aberta 21 dias após a data que foi fechada. Daniel
Miranda, Supervisor do Campo Experimental da Caatinga, da Embrapa
Semi-Árido, destaca que neste momento o agricultor precisa ter cuidado
para não respirar o gás que está contido no interior da lona. Da mesma
forma, se deve adotar algumas precauções no fornecimento do material
amoniado para os animais. Ele orienta que antes de ser oferecida para os
animais consumirem, é necessário deixar a forragem em repouso de um dia
para o outro. Esta é uma forma de se assegurar a evaporação do excesso
de gás do alimento.
Elder Moura explica que ao ser aberta a lona, a palhada estará com uma
coloração escurecida e consistência macia, sinal de que o gás não
escapou e a amoniação deu certo. As quantidades a serem colocadas para o
consumo dos rebanhos é outro aspecto a ser bem observado. Ele orienta
que a porção de consumo adequada é de 1,5 a 2% do peso vivo do animal.
Bovinos, por exemplo, devem receber de 4 a 6 kg/cabeça/dia. No caso de
caprinos e ovinos, a quantidade oferecida deve ser de 0,5 a 0,7
kg/cabeça/dia. O agricultor vai perceber logo o resultado na nutrição
dos animais e na condição dos rebanhos, assegura.
Contato:
Elder Manoel de Moura Rocha – Área de Comunicação e Negócios para
Transferência de Tecnologia
emmrocha@cpatsa.embrapa.br
Daniel Miranda – Supervisor do Campo Experimental da Caatinga
dmiranda@cpatsa.embrapa.br
Marcelino Ribeiro
marcelrn@cpatsa.embrapa.br
Gilberto Pires
gpires@cpatsa.embrapa.br
Embrapa Semi-Árido – 87 3862 1711 ou 3862-4442