O agricultor familiar
Valdeneir Feitosa da Silva, mais conhecido como senhor Irim, é um dos
agricultores que participou do Projeto Unaí: pesquisa e desenvolvimento
em assentamentos de reforma agrária. No assentamento onde ele vive com
a esposa e filhos ocorreram muitas mudanças tanto nos aspectos
produtivos quanto sociais no transcorrer do projeto. Houve um
significativo aumento da produção de leite, hoje a principal atividade
das 43 famílias do assentamento, além de melhorias sociais, com
destaque para a construção da ponte que facilita o acesso ao
assentamento e a melhoria do nível de escolaridade por meio da
instalação de salas de educação para adultos.
Um livro sobre o projeto foi organizado pela Embrapa Cerrados - Unidade
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), localizada em
Planaltina (DF), com o objetivo de contar como foi realizado esse
trabalho iniciado em 2002 no município mineiro de Unaí, distante cerca
de 140 quilômetros de Brasília. O lançamento da publicação ocorrerá no
dia 8 de julho, na Sede da Embrapa Cerrados, durante solenidade em
comemoração aos 35 anos da Unidade.
No início de maio, agricultores e técnicos do município de Querência
(MT) visitaram o assentamento Santa Clara-Furadinho e conheceram de
perto experiências dos assentados com o Projeto Unaí. “Às vezes parece
que vocês estão falando da gente. Só que lá os desafios são maiores,
pois as pessoas possuem culturas muito diferentes”, contou Silvano
Pereira Viana, um dos agricultores do município matogrossense presentes
na visita. Os visitantes puderam conhecer de perto experiências como a
do senhor Irim. Há 14 anos morando no assentamento com a esposa, Eunice
Pereira, e os três filhos, o agricultor contou aos visitantes as
mudanças que ocorreram nos últimos anos na vida da família,
principalmente depois do envolvimento dela no projeto.
A esposa do agricultor, Eunice Pereira, destacou que, para ela, um dos
motivos do êxito do Projeto Unaí foi que, antes de iniciar o trabalho,
os pesquisadores e técnicos procuraram saber o que a comunidade queria.
“Eles foram diferentes nesse ponto. Não chegaram aqui dizendo o que era
ou não melhor que a gente fizesse. Isso foi muito importante”, avalia.
O planejamento das atividades foi feito em conjunto entre os
pesquisadores e os agricultores. Os estudiosos defendem a importância
dessa participação dos agricultores em todas as etapas do processo de
pesquisa, desde a definição de demandas e prioridades, até a avaliação
e validação dos resultados.
Ações prioritárias - Na primeira fase do trabalho
foi
realizado um diagnóstico no qual os assentados identificaram os
problemas enfrentados por eles e as potencialidades a serem exploradas.
Num segundo momento, esses dados foram utilizados no chamado
Planejamento Estratégico Participativo (PEP), quando foram definidas as
ações prioritárias, gradativamente colocadas em prática. Uma das
prioridades destacadas pelos agricultores foi a necessidade de
aquisição de um tanque coletivo para resfriamento do leite – conseguido
por meio de uma parceira com a Fundação Banco do Brasil, cujo projeto
foi feito sob a orientação da equipe de pesquisadores e técnicos do
Projeto Unaí.
A aquisição do tanque foi fator primordial de incentivo para os
agricultores, que passaram a entregar o leite para a cooperativa –
antes eles vendiam para intermediários. “Agora temos lugar certo de
entrega, não temos tantos altos e baixos. Isso acabava desestimulando a
produção. Se isso não tivesse acontecido provavelmente eu já teria
desistido e ido para a cidade”, contou o senhor Irim.
Hoje as 13 vacas que o assentado possui em seu lote de 26 hectares
produzem 150 litros de leite por dia. “Não imaginava que conseguiria
uma produção tão grande. No início do projeto, quando me perguntaram
quantos litros eu queria produzir, falei que se tirasse 30 litros por
dia estava bom. Hoje, meu objetivo é chegar aos 300”, conta.
Atualmente, o agricultor já possui em sua propriedade o seu próprio
tanque de resfriamento. “Só comprei este, pois antes adquirimos o
coletivo. Uma melhoria leva a outra. Com tudo o que estou aprendendo e
praticando, quero aumentar a produção de leite para dar uma vida mais
digna para a minha família”, afirmou. No início, o agricultor vendia
praticamente toda a sua mão-de-obra, como muitos chefes de família do
assentamento. Agora já conseguiu um nível de produção que garante a sua
permanência no lote.
O
processo de gestão dos tanques coletivos, baseado na discussão das
regras de funcionamento, no registro das produções e gastos e na
prestação de contas mensalmente, foi fundamental para o sucesso do
projeto coletivo dos agricultores. Na sequência, as famílias
viabilizaram as salas de educação para adultos e a ponte, aspectos
também priorizados no planejamento participativo.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados Marcelo Nascimento de
Oliveira, líder do projeto, esse processo de desenvolvimento foi
possível devido à melhor participação da comunidade nas atividades . “A
evolução foi grande por conta da mudança de postura deles, de uma
atitude passiva para o protagonismo ”, afirmou. Nesse contexto,
destacam-se também como resultados de pesquisa a validação de métodos
de trabalho adaptados às condições dos agricultores, como o PEP, assim
como a articulação entre inovações técnicas destinadas ao aumento da
produção e inovações sociais como o manejo de tanques coletivos de
resfriamento de leite.
O projeto
O município de Unaí possui 28 projetos de
assentamento (PA). O Projeto Unaí atuou diretamente em três deles:
Santa Clara - Furadinho, Jiboia, e Paraíso. Eles foram selecionados por
representarem a diversidade de condições socioeconômicas e ambientais
da reforma agrária da região, de modo que as referências técnicas e
sociais geradas pudessem ser úteis para o conjunto dos assentamentos.
As linhas de ação que serviram de base para o projeto foram o
fortalecimento das organizações dos agricultores; melhoria do processo
produtivo; manejo dos recursos naturais e da fertilidade do solo,
destaque aqui para a adoção do plantio direto por parte dos assentados;
e a busca de estabelecimento de relações favoráveis com o mercado. A
próxima etapa será iniciada em setembro. Nesta fase, será feito um
monitoramento e avaliação de espaços coletivos para a construção social
de mercados pela agricultura familiar de Unaí.
O projeto é desenvolvido em parceria com o Centro de Cooperação
Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento da França
(Cirad). Também são parceiros o Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA), a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra/SR 28), a Universidade de Brasília, o CNPq, e
o Ministério dos Assuntos Exteriores da França, por meio da Embaixada
da França no Brasil.
O projeto conta ainda com o apoio das associações dos assentamentos do município, da Cooperativa Agropecuária de Unaí (Capul), Cooperativa de Assessoria Técnica para o Desenvolvimento Sustentável (Coopatec), Empresa de Assistência Técnica e Extensão de Minas Gerais (Emater-MG), Escola Agrícola de Unaí, Prefeitura Municipal, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Unaí e Faculdade de Ciências e Tecnologia de Unaí (FACTU).
Juliana Caldas (4861/14/90/DF)
Embrapa Cerrados
juliana.caldas@cpac.embrapa.br
(61) 3388 9945

