16/02/23 |   Segurança alimentar, nutrição e saúde

Reflexões sobre fome e insegurança alimentar são tema de palestra da presidenta da Associação Brasileira de Agroecologia

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Foto: Arte de Luciana Fernandes

Arte de Luciana Fernandes - Islândia Bezerra foi a convidada do Alimentos.com Ciência de fevereiro

Islândia Bezerra foi a convidada do Alimentos.com Ciência de fevereiro

Entre o final de 2020 e o início de 2022, 14 milhões de brasileiros entraram nas estatísticas oficiais de pessoas que estão em situação de fome ou insegurança alimentar grave. Atualmente são 33,1 milhões de seres humanos vivendo sem saber se vão fazer ao menos uma refeição no dia de hoje. Esses e outros dados foram apresentados pela Prof.ª Islândia Bezerra no evento Alimentos.com Ciência do dia 15/2, um bate-papo mensal promovido pela Embrapa Alimentos e Territórios com discussões alinhadas à temática de atuação do centro de pesquisa.

Olhando para o Brasil, o estado de Alagoas, sede da Embrapa Alimentos e Territórios, tem o maior percentual de pessoas que passam fome: 36,7%. Piauí vem em segundo lugar, com 34,3%; seguido por Amapá (32%), Pará e Sergipe (30%) e Maranhão (29,9%). A média no Brasil é de 15,2%. Os dados são do coletivo jornalístico O Joio e o Trigo (@ojoioeotrigo). 

“O problema da fome é mais do que algo puramente social, é também econômico e político”, disse Islândia, que também é Professora da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ela esclareceu que o termo “insegurança alimentar” tem relação não apenas com a qualidade do que se come mas, principalmente, com a quantidade e frequência. 

A palestrante citou o economista Valter Palmieri Jr. (@comidaeconomia), segundo o qual uma casa com segurança alimentar significa o acesso, por todas as pessoas e todo o tempo, a alimentos suficientes para uma vida saudável e ativa. Já a insegurança alimentar seria a falta de disponibilidade e acesso das pessoas aos alimentos. Atualmente a IA é classificada nos níveis leve, quando há a queda na qualidade dos alimentos consumidos e preocupação com o acesso a alimentos no futuro; moderada, quando há restrição no acesso aos alimentos (quantidade consumida); e grave, quando há escassez de alimentos, chegando até mesmo à condição de fome.

Dados do II VIGISAN - Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil - apontam que em 2021/22 somente 41,3% da população brasileira viviam em casas com segurança alimentar, ao passo que 58,7% viviam no contexto da insegurança alimentar em algum grau. A insegurança alimentar grave - fome, segundo a mesma fonte, teria aumentado de 4,2% dos lares em 2013 para 15,2% em 2022.

De acordo com a palestrante, esse crescimento pode ser associado a inúmeros fatores, sendo a desigualdade social um dos principais. “A pobreza e a fome se retroalimentam”, disse uma vez o economista Gunnar Myrdal, explicando o processo de causação cumulativa da pobreza ue ele denomina uma espécie de “círculo vicioso”.

Na opinião da Prof.ª Islândia, a existência da fome impede até mesmo o avanço da democracia. “A pessoa está muito mais preocupada em comer do que em defender algo que é abstrato. O que eu tenho para comer hoje é muito mais concreto. Então também temos que fazer um esforço para perceber como a fome também pode ser utilizada como um importante mecanismo de perpetuação de desigualdades”, afirmou.

 A fome seria, ainda, um produto do subdesenvolvimento. “A fome como estratégia pode ser política de perpetuação do poder e das desigualdades. É preciso reconhecer que existe uma correlação multifatorial para a existência do flagelo da fome”, concluiu.

Fome tem cor e gênero - A palestrante também trouxe para a reflexão dados do relatório “Olhe para a fome”, do II VIGISAN, que mostram que 65% dos lares comandados por pessoas pretas ou pardas convivem com a insegurança alimentar. As mulheres, segundo o mesmo relatório, também são as mais impactadas. Cerca de 19,3% dos lares comandados por elas convivem com a fome, comparado com 11,9% dos lares chefiados por homens.

O retrato da desigualdade de gênero vai além. Dados do coletivo Xepa - Cozinha e Ativismo (@xepaativismo) apontam que 60% das pessoas com fome no mundo são mulheres. Eles também lembram que quem tem fome, tem sede. E que no Nordeste, 4 em cada 10 lares tem alguma restrição de acesso à água, além da insegurança alimentar.

Ultraprocessados - Outro assunto debatido durante a apresentação foram as mortes atribuíveis ao consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil. Esse é o título de um estudo que calculou, pela primeira vez, o número de mortes prematuras (de 30 a 69 anos) associadas ao consumo de ultraprocessados no Brasil: aproximadamente 57 mil óbitos por ano (dados de 2019 - estudo do NUPENS/USP - Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo).

A nutricionista deu exemplos de diversos produtos ultraprocessados que possuem alíquota zero de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), o que também faz com que a comida saudável esteja cada vez mais distante da mesa dos brasileiros.

De acordo com um relatório da ONU divulgado em janeiro deste ano, o número de pessoas sem dinheiro para acessar alimentos saudáveis no Brasil vem crescendo desde 2018, ano em que 36 milhões de pessoas - 17,2% da população - se encontravam nessa situação. Em 2020, esse número teria aumentado para 40 milhões de pessoas, o equivalente a 19% da população. “É preciso fazer com que as grandes indústrias de ultraprocessados sejam co-responsabilizadas pelos males que causam à saúde, como é feito com a indústria do tabaco”, opina. 

O papel da agroecologia - Islândia Bezerra, que atualmente preside a ABA, concluiu a palestra destacando o papel da agroecologia como instrumento de combate à fome e à má nutrição, na medida em que valoriza as dimensões da ciência, das práticas, dos movimentos sociais e das inovações institucionais. “A agroecologia potencializa em nível micro e macro experiências de transformação no enfrentamento da fome”, disse.

Ela destacou o papel da agroecologia como ciência e seu poder de trazer uma perspectiva emancipatória, transformando territórios famintos em férteis.  A palestrante falou ainda sobre a necessidade de mais investimentos em políticas públicas alimentares e agroecológicas. “A alimentação possibilita aumentar a nossa lupa para olhar esse território, esses dados duros, para pensar e propor ações capazes de transformar essa realidade”, concluiu.

Irene Santana (MTb 11.354/DF)
Embrapa Alimentos e Territórios

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